Terça-feira, Março 03, 2009

Coluna Peregrina

OS PRONOMES E A ARTE DE DESAPARECER

Não é fácil. Aprender a falar e aprender a agir são arte para a vida inteira. Muitas vezes percebo-me tropeçando em palavras e atitudes que há muito deveria ter aprendido. O uso dos pronomes é um constante problema.

Não raras vezes, por exemplo, vejo-me colocando-me em espaços que não me pertencem, como ao dizer “meu país”, para um país que não me pertence mas que, ao contrário, inclui-me no número de seus cidadãos. Ou quando possessivos fazem-me não apenas dizer, mas também crer que possuo coisas que ninguém verdadeiramente possui. Há poucos dias comprei uns peixes de aquário. Por mais que o diga “meus peixes”, a vida na verdade não pertence a nenhum de nós. Não é questão de preço, é questão de princípio.

Outro exemplo freqüente: não é raro ouvir uma lista de pessoas presentes a um evento começar com o pronome na primeira pessoa, o grande “eu”. Essa primeira pessoa ocupa, de fato, um lugar imenso em nossa expressão. Mais ainda, ocupa espaço incrível em nosso imaginário. Curioso eufemismo, descrever esse espaço apenas com duas letras.

Um exercício que constantemente faço, sobretudo agora no aprendizado de línguas estrangeiras, é o de evitar possessivos e tentar sair do centro. Até onde venho percebendo, a vida tem sido melhor assim. Sinto-me mais leve, por exemplo, com menos objetos povoando meu imaginário ou com um senso mais comunitário de posse. O quarto onde moro é mais aberto, por exemplo, e pode acolher outros assim como acolhe a mim. A bicicleta que conduzo é mais acessível a outros. O computador no qual componho essa crônica é menos reservado a um dono. Procurando cultivar mais o cuidado que a posse, sinto-me não necessariamente mais pobre, mas certamente mais leve.

Na enumeração de pessoas, quando lembro de colocar-me no fim da lista igualmente sinto a vida mais simples. É como se participasse de uma competição na qual o objetivo é chegar em último lugar. Posso até esquecer-me no conjunto, pois o ato de enumeração já me inclui como narrador – que pode estar implícito. Estar presente no ato de contar é que conta, discretamente presente no exercício da comunicação.

Afinal de contas, quem ganha em viver sob a luz, o peso e a pressão do centro? Santo Inácio dizia que “tanto mais iremos de bem a melhor, quanto mais sairmos do nosso próprio amor, querer e interesse”. Quanto a mim, quero exercitar essa arte de desaparecer para tentar dar mais espaço e mais tempo para os outros.